Entre cálculos trigonométricos
e desenhos fantasmagóricos
o meu corpo se movimenta
como um espectro
como o resultado absurdo
de uma equação matemática
irresolvível.
Se confundindo sutilmente
(o meu corpo, encorpado)
com a sombra formada
por ele mesmo
pela luz trêmula e fria
(corpo? ou sombra? ou ainda - espectro?).
Isso tudo se assemelha a um pesadelo
a um sonho confuso e turvo
logo esquecido no despertar.
Mas que mantém
traiçoeiro
um reles resquício
daquele seu maior medo
que só você conhece
porque só você experimentou.
E que desperta
quando você está mais acordado
quando você mais acreditou
ter domínio da realidade.
domingo, 11 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Paredes
as paredes do quintal
vejo-as todos os dias
todos os dias
de não sei quantos anos
hoje, vejo-as de novo
como sempre as vi
como as viram todos, sempre
mas hoje... vi mais que o visto
será que alguém
já alguma vez viu
o que eu hoje vi?
entre-vi?
mas... que diabos eu vi?
eu posso tentar cem, mil vezes
mas jamais conseguiria exprimir em palavra
o que eu hoje experienciei, vi, vivi...
mas pra não deixar sem fim
essa pequena coisa que chamam de poema
digo que vi...
que eu vi o tempo
naquela parede velha, carcomida,
devorada...
vejo-as todos os dias
todos os dias
de não sei quantos anos
hoje, vejo-as de novo
como sempre as vi
como as viram todos, sempre
mas hoje... vi mais que o visto
será que alguém
já alguma vez viu
o que eu hoje vi?
entre-vi?
mas... que diabos eu vi?
eu posso tentar cem, mil vezes
mas jamais conseguiria exprimir em palavra
o que eu hoje experienciei, vi, vivi...
mas pra não deixar sem fim
essa pequena coisa que chamam de poema
digo que vi...
que eu vi o tempo
naquela parede velha, carcomida,
devorada...
sábado, 26 de junho de 2010
O homem da travessia
desci as escadas
para passar de novo
pela travessia
que passa debaixo
da linha do trem
e lá estava de novo
o homem que leva no olhar
no andar e nos gestos
a imagem do abismo
ele viu
em algum momento viu
fitou o abismo
o fitou tanto
e de tal maneira
que o abismo o tomou
isso é assim
quando se fita o abismo
ao se aproximar demais
do negrume da profundeza
se é tomado
não se pode fugir
nessa Hora
se vira abismo também
para passar de novo
pela travessia
que passa debaixo
da linha do trem
e lá estava de novo
o homem que leva no olhar
no andar e nos gestos
a imagem do abismo
ele viu
em algum momento viu
fitou o abismo
o fitou tanto
e de tal maneira
que o abismo o tomou
isso é assim
quando se fita o abismo
ao se aproximar demais
do negrume da profundeza
se é tomado
não se pode fugir
nessa Hora
se vira abismo também
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Invocação
Canta-me, ó musa,
a minha inglória,
a minha infausta existência,
indigna de ser cantada.
Espalha com teu canto,
ao sabor do vento e do tempo,
o meu fado e a minha dor.
cantá-os, até que se obnubilem no silêncio.
Fazê-o, expôe aos vindouros
a minha sorte e a minha desdita.
Sim, sei que canta com desdém,
pois sou reles mortal, efêmero suspiro passageiro.
Só cantas os mais excelentes hérois,
merecedores da fama inefável
e da glória imorredoura,
através das eras e dos tempos.
Canta-me, ó musa,
os meus feitos grandemente desprezados,
a minha vida diminuta e mesquinha,
E legue ao devir uma vergonhosa fama,
um rumoroso esquecimento embotado...
a minha inglória,
a minha infausta existência,
indigna de ser cantada.
Espalha com teu canto,
ao sabor do vento e do tempo,
o meu fado e a minha dor.
cantá-os, até que se obnubilem no silêncio.
Fazê-o, expôe aos vindouros
a minha sorte e a minha desdita.
Sim, sei que canta com desdém,
pois sou reles mortal, efêmero suspiro passageiro.
Só cantas os mais excelentes hérois,
merecedores da fama inefável
e da glória imorredoura,
através das eras e dos tempos.
Canta-me, ó musa,
os meus feitos grandemente desprezados,
a minha vida diminuta e mesquinha,
E legue ao devir uma vergonhosa fama,
um rumoroso esquecimento embotado...
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Não é
Isso não é nada.
Não é um desperdício de tempo.
Não é um ócio.
Isso não é um depois de meio-dia.
Não é um rabisco no papel.
Nem de longe uma pretensão.
Não é um bocejo.
Tampouco uma ironia.
Isso, o que é?
Pode ser o que for!
De todo modo,
Jamais será um poema.
Não é um desperdício de tempo.
Não é um ócio.
Isso não é um depois de meio-dia.
Não é um rabisco no papel.
Nem de longe uma pretensão.
Não é um bocejo.
Tampouco uma ironia.
Isso, o que é?
Pode ser o que for!
De todo modo,
Jamais será um poema.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Inveja do meu cão.
queria ser como meu cão
meu cão é doido
muito doido
mas pelo menos parece feliz
ele pula, ele salta
corre desembestado
e não me obedece, o maldito
mesmo eu o alimentando
meu cão é um anarquista
diverte-se às minhas custas
ele corre de mim
pra depois parar e sorrir
com deboche
queria mesmo ser meu cão
eu sou tão doido como ele
mas eu sou um doido doente
não tenho salvação
sou um velho sério e aborrecido
queria ter aquela jovialidade
aquela alegria irracional
correr com a língua de fora
até cansar de ser livre
isso: ser livre sem saber
é a minha inveja dele!
meu cão é doido
muito doido
mas pelo menos parece feliz
ele pula, ele salta
corre desembestado
e não me obedece, o maldito
mesmo eu o alimentando
meu cão é um anarquista
diverte-se às minhas custas
ele corre de mim
pra depois parar e sorrir
com deboche
queria mesmo ser meu cão
eu sou tão doido como ele
mas eu sou um doido doente
não tenho salvação
sou um velho sério e aborrecido
queria ter aquela jovialidade
aquela alegria irracional
correr com a língua de fora
até cansar de ser livre
isso: ser livre sem saber
é a minha inveja dele!
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Velho
Sinto como se estivesse ficando velho
Posso nem estar, pode ser só aparência
Impressão.
Mas aí é que está
Não é ser ou estar, é sentir
Me sinto velho.
Eu sinto e me sinto mal
Olho as imagens desbotadas e borradas do passado
E vejo que são poucas, como vazias.
Eu sempre acreditei na inexistência do tempo
Ainda assim eu volto e revolto
Eu retiro e reboto as pás de terra
Não deixo descansar em paz as mortas lembranças
Malfazejas, que vem com chibatas
E deixam em carne-viva a minha vida já tão morta
Posso nem estar, pode ser só aparência
Impressão.
Mas aí é que está
Não é ser ou estar, é sentir
Me sinto velho.
Eu sinto e me sinto mal
Olho as imagens desbotadas e borradas do passado
E vejo que são poucas, como vazias.
Eu sempre acreditei na inexistência do tempo
Ainda assim eu volto e revolto
Eu retiro e reboto as pás de terra
Não deixo descansar em paz as mortas lembranças
Malfazejas, que vem com chibatas
E deixam em carne-viva a minha vida já tão morta
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